Tópico

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O dia em que a Terra parou

Raul Seixas era um grande cinéfilo e por varias vezes usufruiu dessa cultura de massas em suas letras, aliás, o maior mérito dele na história da música brasileira foi justamente a popularização do rock no Brasil. Não é estranho um rockstar às avessas ser também um ícone popular?

Pois bem. A música “O dia em que a terra parou” do disco homônimo de 1977 foi composta por Raul depois que ele assistiu ao filme, mas ele visualizou na idéia do planeta paralisado outra coisa, o colapso do sistema.
A figura excêntrica de Raulzito somada ao que ele representa para o rock brasileiro as vezes acaba por ocasionar pequenos desvios biográficos. Por exemplo, é muito comum idealizar Raul como um agitador político, quando na verdade o máximo que ele era é um náufrago a deriva dos desmandos ditatoriais. Protestava porque era da sua natureza protestar e não por haver um real interesse nos destinos da política nacional.

A história mais conhecida e continuamente contada por ele mesmo nos shows é da música “Rock das Aranhas” que narra uma insólita transa lésbica. Na época a censura distribuía aos cantores um livreto, o “dicionário da censura”, com todas as palavras proibidas por um motivo ou outro, palavras inocentes como “povo”, “gente” e vejam só: “aranha”. Mas Raul não sofreu mais com a censura do que qualquer outro cantor, Chico Buarque mesmo foi impiedosamente perseguido e para escapar da censura ludibriava-a genialmente metaforizando suas letras mais subversivas. Na verdade, a loucura dos censores era tanta que o lema era “na dúvida, proíba”. Difícil mesmo era escapar ileso aos cortes e recortes e avisos de “censurado”.
Mas uma coisa eu reconheço, ninguém era mais estremo que Raul no palco. Um dos episódios mais clássicos foi quando ele incitou a galera a enfrentar os policiais que fiscalizavam o show. Nada mais subversivo que um show do Raul em plena ditadura. Era um artista de varias faces, não por acaso uma espécie de Bob Dylan brasileiro. Realmente, é fácil se confundir.
Então, voltando ao assunto inicial.
A grande maioria das músicas realmente exclamativas do Raul são do período pós ditadura, portanto – fora o exílio imposto graças à concepção de uma Sociedade Alternativa em território brasileiro que na pratica é a mesma sociedade concebida pelo Anarquismo – nunca houve um confronto direto entre cantor e generais. Mas Raulzito sempre inseriu em suas músicas e conversas e futuros projetos uma deformidade da civilização capitalista, o monstro Sistema.
Ah, finalmente cheguei onde queria.

Hoje em dia é muito comum ver certos roqueiros estereotipados falando do vilanesco Sistema como uma modalidade de McDonalds em escala global. Raul foi provavelmente o primeiro a abordar o assunto na música “O dia em que a terra parou”. O sistema como um relógio, onde cada engrenagem deve estar funcionando perfeitamente para manutenção de algo maior e regulação do tempo. E a paralisação de apenas uma dessas engrenagens significa a paralisação de todo o sistema. Em outras palavras, a ordem dos fatores altera o resultado.
Alguém poderia pensar que o berço do Sistema, como o conhecemos, foi a revolução industrial onde acontece a mecanização do trabalho e a revelação de um sistema controlador, mas na verdade tudo esta interligado. Até onde sei o sistema é anterior a ditadura, anterior a civilização e vou além, anterior até ao próprio big bang. O sistema é um emaranhado de perguntas sem respostas.

2 Comentários:

AlexRene disse...

Magnífico post. Finalmente alguém fala de Raul Seixas de forma elucubrativa e não de forma chata = nostálgica-coisa-de-meus-pais-malucos-anos 70-80. E ainda, tocastes num assunto deveras delicado para este que vos comenta. Eu fui HEadBanger durante oito anos. Dos 14 aos 22, e hoje sinto os efeitos colaterais de tal época. No que concerne a Raul Seixas, eu era um extremista que detestava o ícone de brega-bar que ele representa pra muita gente mal informada - inlusive eu. Quando no mais o Rock n' Roll me foi porta de entrada pra outras culturas, em outro momento eu jurava que era um ponto de rebeldia quando na verdade foi instrumento de controle e consumo da rebeldia pelo sistema. Assim, em vez de investir em conhecimento, eu perdia meu tempo em querer ser um guru do rock, um grande sábio daquela cultura; até que, por acaso, o ponto de divergência aconteceu, me levando à ruptura de muitos conceitos e finalmente à enxergar o que aconteceu: o sistema me enganou. O mesmo sistema para o qual Raul tentou criar uma alternativa. Enfim, em muitas letras reconhece que ele permanece à frente de nosso tempo, mesmo nas mais simples como Maluco Beleza. Um grande abraço.

Lene Shayla disse...

Alex rene,cara seu comentário foi muito bom!!