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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Que país é esse?

Vamos ver quem é que entende:
Existir outro Brasil, parecido com esse aqui.
Onde a história é diferente.
Narrada por outra gente, paralela a essa daqui.
Eu que vim só pra assistir, acabei incomodado.
Como pode existir duas histórias pra um estado.
Fui na escola pra aprender a lição e o ditado.
Sai de lá sem saber, fui muito mal informado.
Ou o cidadão tem que ter o faro bem apurado,
Ou a pátria sempre foi um sentimento abstrato.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Epopéia

As caravanas, as caravelas, as carabinas e os caras
Os paralamas, as paralelas, os paradigmas e os párias
Os anarquistas, os alarmistas e as conquistas mistas
Os escapistas, os exorcistas e os terroristas xiitas

Aí eu não posso agüentar
Quero botar pra fuder
Futuro que invente o passado que desse compasso não quero saber
Aí eu não posso contar
Quem quiser pague pra ver
Se já passou é passado que nesse marasmo não quero viver

Tudo que é saga e epopéia tem uma platéia que rege o final
Tudo que a história conta a gente aponta entre o bem e o mal
Sempre que o mundo muda o tempo desbunda a nossa moral

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Rap hour




De importância social meu dicionário entende
Tiro a linha do cifrão e vou pra linha de frente
Antigamente a língua não era tão elegante
Não distinguia usuário entre rico ou traficante
Mas agora a estante estrebuchou de livros
Com tantas palavras se faz um bom disco
E eu advirto, caso possa lhe interessar:
Que é proibido fumar ...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Meu ego infla

Impressionante como eu sempre estou certo
Impressionante como eu tenho razão
Impressionante como as coisas dão certo
Impressionante quando elas não dão

Mas é frustrante só o fazer o que é certo
Melhor de certo é sendo certo ou não

Interessante como o mundo da voltas
Interessante como voltas lhe dão
Interessante como as linhas são tortas
Interessante quando nota a lição

É fascinante executar tantas notas
Mas o que importa é notarem a canção

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Consciência


tanta coisa rara
tanta coisa para saber
tanta muralha
para se escalar e vencer
tanta parada
tanta palavra para dizer
tanta batalha
para se ganhar ou perder

cada história
toda trajetória tem fim
cada começo
toda vez que esqueço é assim

domingo, 19 de agosto de 2012

Piloto kamikaze reclama da falta de proteção no trabalho

quero registrar com meu expressionismo tosco
todo meu marasmo e desgosto
ao cubismo e surrealismo do vapor barato
todas idas e vindas, sendo que de fato
na total e plena consciência de meus atos
do que é real ou do que é abstrato
como o cansaço subjetivo do meu fado
liturgia farroupilha do tempo passado
ao roer dos ossos nada é declarado
disse o poeta louco do que um sonho é feito
eu não digo nada, só observo o pleito
vejo a desventura dos bem aventurados
vejo o santo barroco desfigurado
se toda alegria é pagã e ofende a cristo
eu tenho a entrada para o paraíso
desconfio de todo riso ou sorriso falso
de todo o lirismo do filtro do cigarro
se o jornal prevê um tempo fechado
é porque novamente chove sobre Santiago

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Transmutação



A vida é demais pra quem quer mais do mesmo
O tempo passou e nos lançou a esmo
Eu sou o que sou e sempre sou eu mesmo
Às vezes demais, às vezes de menos

Queria ser paz, queria ser paisagem
Queria ser cais, queria ser miragem

Quem quer sempre mais acaba sendo menos
Eu sou o que sou e nunca sou o mesmo

sábado, 14 de julho de 2012

Soneto dualista

Quero o carinho de quem pede bis
ou de quem torce por final feliz.
Bem diferente daquele que diz
que só se importa com o seu nariz.

Quero a alegria de quem acha graça
e que pra rir não precisa de nada.
Bem diferente daquele que acha
que um sorriso é coisa sagrada.

Quero a coragem de quem se envolve
nas causas nobres que ninguém promove.
Bem diferente daquele que finge
que se preocupa com o nariz da esfinge.

Quero a animosidade de quem ama e desconhece o mundo.
Bem diferente daquele que grita que conhece e odeia tudo.

sábado, 31 de março de 2012

Marxismo de bolso

Existe no trabalho braçal, comum a todos, a satisfação das coisas simples, da ação visível e imediata de quem constrói e desconstrói o mundo. Trabalho onde o cansaço liberta e a mente sem rédeas corre frouxa, como bixo que retorna ao habitat natural, que já não é mais caça nem caçador, apenas é e assim o sendo vive. É trabalho qualquer realizado por qualquer pessoa. Diferente do trabalho moderno feito pra modernidade em troca do futuro que, apesar de ser brilhante, não chega, mas cega. Trabalho esse que apequena, subjuga e atormenta, que divide os indivíduos e, vou além, divide o próprio indivíduo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Método peripatético de gozar a vida

Se a teoria já não faz sentido
se quase tudo engorda e faz mal
se a verdade fosse reunida
numa folha de jornal.

O tempo passa e a gente fica
roendo as unhas querendo um sinal
e o natal passa e a gente acha
que o mundo já não acaba afinal.

Depois de novo a mesma desgraça
a velha luta do bem contra o mal
e o ano novo nunca começa
antes que acabe o carnaval.

São tantas perspectivas:
método peripatético de gozar a vida.

Filosofia que exercita a memória
na falta dela se exercita o pulmão
mas pense bem preste atenção
pode ser falta de imaginação.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ambrósio

O contrato social é uma merda.
Você sabe, por exemplo, como funciona a dinâmica de uma festa pra...gente feia?
Claro que não. Você, visivelmente, não está familiarizado(a) com esse contexto. Permita-me explicar:
O feio costuma, na maioria das vezes, ser muito indiscreto com sua feiura. Porém, aqueles que o comtemplam, já não o são. Assim, o feio, a partir do instante em que se percebe sua presença na festa, até o momento em que, por uma questão de comodidade geral, vai embora, passa a ser institucionalmente ignorado.
Acredita-se que evitando olhares curiosos o feio se sentirá mais a vontade. Pra garantir, alguns chegam a fingir que o feio nem existe, coisa que requer esforço genuíno. Tudo pelo social.
Mas o feio, é claro, não entende dessa forma, entende de outra forma e se deforma ainda mais em sua feiura.
Gênio é o cara que inventou o edredom.

sábado, 27 de agosto de 2011

Oração

Considerando tudo que o Senhor me deu, corro o risco de passar-me por um lazarento hipócrita ao ousar, aqui, também alugar vossos ouvidos divinos com minhas lamurias mundanas. Mas, crente que é vossa mão que vem abençoando meus passos nessa jornada e, quando necessário, apunhalando aqueles que me querem mal, clamo que não descuide daqueles desgraçados que tanto te amam e gritam teu nome. Pois eles, tragicamente, só tem a ti como consolo e ao teu reino como abrigo.
Dada a peculiaridade dessa oração, rogo que compreendas o contexto geral no qual ela é transcrita, do qual naturalmente és onisciente e pactuante. Rezo que intervenhas logo e de um fim pragmático em todos esses conflitos armados movidos pelo ódio entre iguais e ignorância coletiva, quantos destes então declarados em tua graça.
Peço, principalmente, que ilumine a física moderna e seus cientistas que tanto te desprezam e que um dia ainda hão de provar que não existes, que és apenas a personificação da retórica do autor. Mas dai também já não importa mais, pois nesse dia tudo ficará devidamente explicado, todos os mistérios solucionados, todas as perguntas respondidas e toda humanidade proscrita.
Amém.

sábado, 2 de julho de 2011

Apoteose

Eu tenho uma teoria sobre os músicos, uma ideia que envolve geneologia e analogias de toda sorte. Baseia-se basicamente no conceito de evolução e dispersão de genes.
Defendo ululante que esses músicos todos que aí estão, inflando bandeiras, fazendo barulho, rabudos, herdam e transmitem genes musicais em diversos níveis.
A cada uma ou outra geração, nasce um desses fabulosos talentos anônimos de quermesse. Cheios de potencial, igual ao império romano. Mal sabem eles que tem, no passado, um ancestral comum, provavelmente algo que, urrando pra lua de frio, inventou o Sol, daí até “solar” todos os acordes musicais foi um pulo, quer dizer, um salto evolutivo.
Portanto, não me venha dizer que é uma questão de prática, é uma questão de dote. E se grandes poderes trazem grandes responsabilidades, o mínimo que todo pretenso artista deveria fazer é refinar sua arte para posterioridade.
Darwin explica. Eu interpreto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Vide Bula

As discussões sobre a legalização ou descriminalização da maconha, hoje tão curiosamente presentes nas mais diversas esferas sociais, tiveram seu inicio (assim creio) no exato momento em que esta foi proibida, numa atitude taxativa, antidemocrática e talvez até segregadora. Mas, saber por que a maconha foi proibida não responde por que ela continua o sendo. Para pensar essa questão é preciso adotar um senso critico destituído de pessoalidade, até mesmo porque, da outra maneira nossos políticos já o fizeram.

A análise racional da proibição e/ou legalização da maconha dispensa assim critérios subjetivos ditados por preconceitos culturais, juízos de valores, estereótipos clichês, respostas fáceis, novelas globais e, principalmente, dogmas religiosos (afinal, não podemos nos deixar influenciar pela alegação de que a erva é do diabo, se não houve nem mesmo flagrante apreensão). Além do mais, é preciso lembrar que toda teorização sobre o tema parte da visão de mundo incompleta de quem vive o presente - onde a maconha é proibida, onde a demanda não diminui, onde o mercado ilegal supre sua oferta, onde a violência dá suporte ao tráfico, onde a policia presta um desserviço ao cidadão, onde um ganha e outro perde -, não podendo haver contanto consenso cientifico que auxilie completamente a tomada de decisão, e sim, a mera sugestão de cenários hipotéticos.

Parece muito barulho por nada, mas a verdade é que os tempos mudaram, tanto pra quem é contra quanto pra quem é a favor de mudanças. No âmbito sócio tecnológico, a democratização do conhecimento possibilitou a dissecação de temas antes tabus e a interação multimídia inventou o cidadão proativo. Em consequência dessas mudanças, paradigmas já tradicionalmente contestados ganham a urgência e intensidade do virtual. A civilização, num sentido de ordem evolutiva, busca agora, através dos meios possíveis, a resolução dos males sociais criados por politicas públicas equivocadas, numa, porque não dizer, terapia das politicas públicas passadas.

sábado, 14 de maio de 2011

Ângulos

Meu pai assistiu na tv o caso do rapaz milagrosamente curado de doença desconhecida após ser abençoado por uma garotinha peculiarmente religiosa. O caso é que três dias depois esse rapaz, supostamente curado, morreu.
Segue-se sua extraordinária conclusão sobre esse fenômeno: “Logo que curado, fornicou e bebeu, sua fé não era verdadeira, por isso morreu.”

terça-feira, 12 de abril de 2011

Síntese

Só agora me dou conta. Nietzsche já sabia e ainda fazia questão de ressaltar, mas ninguém ligava, ele era um homem à frente de seu tempo. Os poetas também sabiam, mais faziam mistério, quando perguntados des-versavam, alegavam a competência dos seus versos e prosas à lúdica inspiração. Que nada. À sapiência melodiosa dos pequenos pensamentos, eis aí o segredo, da música de Bob Dylan ao aforismo de Nietzsche. Síntese. É preciso dizer em sete linhas o que o maior sábio do mundo diz em sete livros. Ao acadêmico que idolatra a ciência falta o poder da síntese.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Do contrato social

Decifrando a sabedoria popular
É clinicamente sabido que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose prescrita, por isso, se humildade é fundamental, convém lembrar também que a humildade exacerbada é sinal de presunção, ou, em outras palavras, quem muito se abaixa acaba mostrando o rabo.

A análise dos terríveis e fatídicos anos da revolução francesa demonstra que, na chamada luta por “liberdade, igualdade e fraternidade”, o papel do povo se reduz ao de peões na luta pelo poder. Todavia, é bem verdade que esse mesmo povo se divertiu no processo.

Caso você conte uma piada a alguém e esse alguém comente apenas "muito engraçado", desconfie do real sucesso da anedota. O óbvio, em geral, não prova nada, mas pode muito bem significar o contrário.

O fato de alguém ser contra o desarmamento só demonstra, mais que qualquer outra coisa, que ela não confia no estado.

Das teorias impraticáveis
Das minhas observações, do muito que vi e pouco que vivi, conclui que, uma pessoa culpada, quando submetida a certo grau de pressão, pode: Negar, calar ou explicar. O mesmo, infelizmente, também acontece no caso de inocência. Daí que essa constatação na prática não prova nada, mas vale por nos lembrar que com o ser humano o resultado é sempre incerto.

Não existe verdade absoluta. Só a mentira pode responder absolutamente por algo.

Robespierre ao declarar “A virtude sem o terror é impotente, o terror sem a virtude é fatal.” criou o bullying.

Da retórica consumista: Roupas e acessórios de marca teoricamente duram mais, mas quem compra não costuma esperar tanto.

A moral desmoralizada
Apesar do cebolinha, garoto de classe média alta, que não ganhou seu apelido em vão, foi o cascão, a criança mais pobre da turma, que ficou conhecido por não gostar de tomar banho. Há toda uma crítica social por trás da nossa literatura infantil.

Da polêmica dos últimos dias: agora querem responsabilizar também quem vendeu a arma ao assassino. Ora, então por que não o fabricante?

Slogan para o departamento de marketing da PM: "Sua alegria é nossa insatisfação, Não fume maconha."

O engraçado sobre a ética é que todo mundo tem a sua ética e acha que só a sua é ética.

Das irreversibilidades
Cuidado crianças, vocês pensam que estão mudando, mas na verdade, quem esta mudando é o mundo.

A revolução francesa foi ao fim e ao cabo uma revolução antropofágica.

Ao acadêmico que idolatra a ciência falta o poder da síntese.

Você pode até fazer pouco caso dos ambientalistas, mas ninguém, em sã consciência, pode olhar o Rio Jordão sem sentir um pouco de culpa também.

Historicamente todas as possíveis civilizações são superadas. Não há exceção.

Chegou a hora da humanidade parar de pensar apenas em como cultivar o solo e começar a pensar também em como cultivar o sol.

Você só é o que é enquanto é, se deixar de ser não é mais.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Jesus Christ Stand-up Comedy

A galera que escreveu a bíblia só errou num ponto, e é deverás curioso que nem mesmo numa dessas suas atualizações esporádicas esse erro tenha sido reparado. Já daí a tendência católica de insistir no erro.
Como qualquer orador (sacou?) sabe, humor é fundamental, todo discurso - especialmente o religioso, ainda que despropositadamente - busca em algum momento o riso. Afinal, esse é o método historicamente comprovado de persuasão. Mas então, como pode o livro sagrado do homem que ri ser tão sério assim? Totalmente sem graça, se levando a sério mesmo nas situações mais pitorescas, desde o lúdico gêneses até o nonsense apocalipse. Só nisso perdeu-se uns 60% dos momentos piada-pronta da nossa literatura.
É muito perturbador. O homem, já culturalmente condicionado, ao entrar em contato com a bíblia recebeu mensagens complementares e ao mesmo tempo contraditórias. O ponto duma é o contraponto d’outra. Um bacanal. A confusão foi tanta que, nesse primeiro instante, a humanidade ficou sem ação, perplexa diante de tal paradoxo. Nesse meio tempo, a igreja, já a beira de um ataque de nervos, quer dizer, como estatisticamente a elite esta sempre preocupada né, encerrou a discussão decretando, talvez num desses concílios de prelados, que o riso era coisa do diabo e assim ficou. Foi sua ruína.
Em curto prazo foi uma sabia decisão administrativa é verdade, mas agora, nesses tempos de gozos instantâneos, é plausível dizer que essa estratégia esta muito obsoleta. Basta assistir alguns minutos de qualquer um desses programas religiosos de tevê de hoje em dia, esses velhos safados pastores são todos uns gozadores.
Por lógica, se Deus existi é em versões limitadas na linha do tempo e com propósitos igualmente distintos. Já o homem continua essencialmente o mesmo, um babaca.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Terapia

Qual o problema da gente? Gente que teme a realidade, lhe mascara, lhe maquia, lhe consome. Pois se a gente tem grana tem sempre razão. Gente que encara o mundo atrás de escudos, mas não consegue encarar o espelho. Gente que ri impunemente, mas não encontra satisfação. Gente que desbravou fronteiras, pra acabar trancada entre quatro paredes. Gente que faz tudo tão igual, mas que acredita que é tão diferente que nem pode se dizer que é da mesma gente. Gente que sofre. Gente que sente. A gente que é um, tão diferente que são vários, mas que temem as diferenças igualmente. Gente que cansou de correr. Gente que não pode parar. A gente que senta pra assistir TV e assisti a vida passar. Gente que quer muito mais, mas que não pode agüentar. Gente que reclama da rotina, mas que tem medo da mudança. Gente que reclama da vida. Gente que reclama da morte. Gente que chora calada. Gente que não tem medo de nada. Gente como a gente. Gente que não é gente. A gente debruçada em paradoxos. Qual o problema?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

God

No começo era apenas uma voz tímida disputando atenção em meio à multidão apressada.
- Com licença... Um minutinho da vossa atenção, por favor. Huhum... Senhores, por favor...
Mas aos poucos o estranho interlocutor parecia ser mais e mais notado pelos transeuntes catatônicos, como se seu público instantaneamente soubesse da importância de suas palavras e assim parasse tudo para apenas ouvi-lo e sua voz os enchia de graça, glória e amor. Posteriormente alguns de seus delatores, os ditos racionais, vieram a relatar esse feito apenas como interessante visto que qualquer um que descende do céu e flutua no ar merece seus 15 minutos de fama. Assim, ele continua:
- Bem, hum... não tem como dizer isso sem causar polêmica. Hã... então, eu sou vosso novo deus. O quê? Vocês também não concordam que já era tempo de trocar a administração? Como vocês bem sabem a gerência antiga andava muito acomodada, não é querer falar mal, mas já faz quanto tempo desde a última intervenção divina? Deus, eu nunca me acostumo a esse fuso horário de vocês, o futuro é tão urgente e o passado tão frívolo, não me espanta a obsolescência anterior - eu mesmo mal sei o que se passa em vosso comprimento de onda. Enfim, eu sei que vocês estão um pouco confusos e que com certeza ainda haverá muita especulação a meu respeito, mas primeiramente quero deixar claro a que vim, pois estou aqui pessoalmente, na verdade, como vocês já sabem, eu também estou em todos os lugares de modo que eu nunca sei ao certo como me localizar geograficamente, mas o importante é vocês saberem que minha presença representa o início de uma nova era para humanidade, uma era a ser vivida sobre a égide da transparência. Acabaram-se os mistérios, vocês querem a verdade, pois então terão a verdade e mais que a verdade vocês terão também a luz. E pra começar... hum, deixa eu ver... aonde esta mesmo... ahá, dona Maria Bernardes, pensou que eu não fosse lhe ver ai atrás hein? Eu vejo tudo.
Para o bem ou para o mal o certo é que nesse momento o circo já estava completamente montado, com direito a palco e fogos de artifício, câmeras de tevê e repórteres investigativos, além é claro de pessoas sem noção tirando fotos com o celular e o já clássico pipoqueiro que também não ia perder uma oportunidade dessas né. Mas, quando aquele que dizia ser deus, chamou um membro da platéia ao palco, a multidão foi ao delírio e explodiu em aplausos, alguns ainda indagavam baixinho se o show seria interativo. Voluntários a assistentes divinos rapidamente encaminharam a velha senhora ao palco.
- Pois bem, responda-me rapidamente, é verdade que a senhora questionou a existência do inferno?
- É...
- Então... a má noticia é que o inferno não só existe como eu estou lhe enviando pra lá agora mesmo. Ah e não se esqueça de dar um abraço no capeta por mim dona Maria, é, ele também existe.
Deus mal acabou de pronunciar sua sentença e a velhinha desaparece, pá-pum e ela não está mais lá, sumiu diante a multidão atônita. E em tom celestial ele continua:
- Coitada, boa pessoa, uma pena que questionava demais. Mas não se preocupem pessoal, para os bons sempre haverá o céu e depois Paris é claro. Aliás, essa é a boa noticia ok.